Romanée-Conti de 1899 é aberto após 127 anos na Borgonha
Douglas AvillinShare
História E Cultura Do Vinho
Romanée-Conti de 1899 é aberto após 127 anos e reacende o fascínio pelos grandes vinhos
A abertura de uma garrafa de Romanée-Conti de 1899, avaliada em mais de R$ 600 mil, transformou uma degustação privada na Borgonha em um dos episódios mais simbólicos do vinho recente. O caso reúne raridade, conservação extrema, história e uma pergunta que atravessa gerações: até onde pode ir a longevidade de um grande vinho?
Um Romanée-Conti de 1899 foi aberto após 127 anos em um jantar privado na Borgonha. Estimada em cerca de 100 mil euros, algo acima de R$ 600 mil, a garrafa sobreviveu a guerras, décadas esquecida em adega e uma venda quase despercebida em leilão antes de ser redescoberta e finalmente degustada.
O que aconteceu e por que isso importa
A degustação aconteceu em janeiro, no restaurante Auprès du Clocher, em Pommard, na Borgonha, reunindo um grupo restrito de convidados ligados ao universo do vinho. No centro da mesa estava uma garrafa de Romanée-Conti de 1899, um dos rótulos mais raros e reverenciados do planeta.
A relevância da notícia vai além do valor estimado da garrafa. Abrir um vinho dessa idade recoloca em pauta temas fundamentais para o mercado do vinho fino, como procedência, conservação, longevidade e o papel cultural das grandes garrafas no imaginário de colecionadores, produtores e apreciadores.
Uma garrafa com linhagem histórica
Segundo a apuração publicada pela CNN Brasil, a garrafa foi originalmente comprada diretamente do Domaine de la Romanée-Conti pela família aristocrática francesa de Brou de Laurière, ligada ao comércio de vinhos em Bordeaux. Por décadas, ela permaneceu intocada em uma adega familiar, até reaparecer após a morte de um descendente em 2011.
O detalhe mais impressionante é que a garrafa passou despercebida em um leilão local, incluída em um lote genérico de vinhos tintos do século XIX. Resgatada por um comprador atento, seguiu caminho até chegar ao investidor singapuriano Soo Hoo Khoon Peng, que decidiu abri-la em vez de tratá-la apenas como troféu.
O peso de um Romanée-Conti
Falar de Romanée-Conti é falar de um dos nomes mais emblemáticos da história do vinho. Produzido pelo Domaine de la Romanée-Conti, na Borgonha, o rótulo ocupa há décadas uma posição quase mítica entre colecionadores, críticos e investidores. Não por acaso, safras históricas da propriedade costumam alcançar cifras extraordinárias em leilões internacionais.
Nesse contexto, a garrafa de 1899 chama atenção não apenas pela idade, mas pela combinação entre procedência documentada, conservação e simbolismo. O valor estimado em torno de 100 mil euros se sustenta justamente nessa soma de fatores que ultrapassa a lógica comum de preço e raridade.
A ciência da sobrevivência
Um dos pontos mais fascinantes do caso é o fato de o vinho ainda apresentar sinais de vitalidade após mais de um século. A garrafa teria sido produzida a partir de Pinot Noir de videiras não enxertadas, em um período muito próximo ao impacto devastador da filoxera sobre os vinhedos europeus. Isso faz do exemplar uma cápsula histórica da Borgonha anterior à transformação completa de seus vinhedos.
Outro fator decisivo foi o estado físico da garrafa. O nível de líquido, o espaço de ar no gargalo e a conservação relativamente estável ao longo do tempo ajudam a explicar por que o vinho conseguiu atravessar 127 anos sem se tornar apenas uma curiosidade oxidada. Em grandes vinhos, a combinação entre origem excepcional e armazenamento correto pode redefinir a noção de longevidade.
E quanto ao sabor
Na taça, o Romanée-Conti de 1899 apresentou tonalidade âmbar com reflexos alaranjados e notas descritas como flores secas, chá e ameixa em conserva, segundo os relatos reproduzidos por CNN Brasil e outros veículos. Já não se tratava de fruta fresca ou energia juvenil, mas de um perfil de maturidade extrema ainda reconhecível.
O que surpreendeu os presentes não foi a ideia de um vinho vibrante, mas a preservação de identidade. Após 127 anos, a garrafa ainda conseguia falar em linguagem de terroir, memória e evolução. Para um vinho nascido em 1899, isso é um feito raro mesmo entre os maiores rótulos do mundo.
Impacto no mundo do vinho
Casos como esse reforçam por que os grandes vinhos continuam ocupando um espaço singular no imaginário global. Eles não são apenas bebidas de alto valor. São objetos culturais que unem território, técnica, tempo e reputação. Quando uma garrafa com 127 anos ainda consegue oferecer experiência sensorial, ela amplia a percepção do que significa longevidade no vinho.
Para o mercado do vinho fino, o episódio toca em um ponto sensível: a diferença entre possuir e viver o vinho. Em um ambiente em que muitas garrafas lendárias são tratadas como ativos, a decisão de abrir um Romanée-Conti de 1899 recoloca em destaque a experiência como parte essencial de seu valor.
Leitura editorial Foster Wine
A abertura de um Romanée-Conti de 1899 não importa apenas pelo preço ou pela raridade. Ela importa porque lembra algo essencial sobre o vinho: em certos casos, uma garrafa se torna testemunha de época. Carrega escolhas de viticultura, história familiar, cultura regional e uma relação muito específica com o tempo.
No fim, talvez seja isso que transforme um grande vinho em algo maior do que um rótulo desejado. Quando preservado, compreendido e finalmente compartilhado, ele deixa de ser apenas patrimônio e volta a cumprir sua vocação original: reunir pessoas em torno de uma experiência que dificilmente se repete.
Nota editorial: Este conteúdo foi produzido pela Foster Wine com finalidade informativa, educativa e jornalística, com base em fontes públicas, institucionais e veículos especializados considerados confiáveis na data de publicação.
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Como toda apuração jornalística está sujeita a desdobramentos e atualizações, este conteúdo poderá ser revisado a qualquer momento para correção, complementação ou atualização de informações.
Fontes
CNN Brasil — Vinho avaliado em mais de R$ 600 mil é aberto após 127 anos
InfoMoney — Qual o gosto de um vinho de 127 anos que vale mais de R$ 600 mil?
Halliday Wine Companion — Romanée-Conti 1899 tasting report